Primeiro turno das eleições de 2026, o que isso reflete sobre a democracia no Brasil?

1§ Nesta semana, pudemos observar um acontecimento curioso: Flávio Bolsonaro saiu na frente das eleições de 2026 no primeiro turno. Nas discussões acadêmicas e nas pesquisas eleitorais, como as da Datafolha e Quaest, a maioria das pesquisas apontavam que Lula iria sair na frente. Bom... por que isso não aconteceu? A taxa de abstenção aumentou (e muito), além do grande índice de votos brancos e nulos, mas o que exatamente isso quer dizer? Na minha perspectiva como cientista social, estamos vendo uma crise da hegemonia no que tange à democracia.

2§ Democracia representativa e a sua crise. Em 2018, o G1 publicou uma matéria na qual o Instituto Locomotiva/Ideia Big Data apontou que 96% dos brasileiros não se sentem representados pelos políticos em exercício no país. Ademais, uma pesquisa nacional do Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos, do Instituto Oyá, revelou agora — em 2026 — que 65% dos brasileiros não confiam nos políticos. Karina Camilo analisa os dados com o seguinte diagnóstico: "Os dados provam que o brasileiro não está apático, mas sobrecarregado por modelos de representação que não resolvem as urgências da sua rotina". Por outro lado, a minha conclusão vai muito além das meras urgências da rotina e parte de duas causas: egoísmo e alienação.

2.1§ Sobre o egoísmo. A maioria dos brasileiros que escolheu um partido votou no PL, como bem pudemos observar na apuração dos votos. Em geral, não se observam muitos casos nos quais haja uma grande admiração pelas propostas — até porque alguns dos candidatos nem propostas possuem (Eduarda Campopiano está aí para provar que é possível se eleger sem proposta alguma). Dentre os discursos dos votantes, observei que a motivação eram os "valores" — como os religiosos e, em grande parte, preconceituosos (Pavanato que o diga; todos os seus projetos e discursos são para atacar a comunidade trans). Outra motivação é a meritocracia; as pessoas querem áreas específicas de liberdade negativa: econômica e de discurso.

2.1.1§ Sobre a área econômica. É a típica falácia de que a economia se autorregula. Claro, é uma crença que fundamenta o liberalismo e, em especial, o neoliberalismo. Entretanto, aqui também surge um certo reflexo da alienação: as pessoas acreditam — independentemente da sua classe social — na falácia do Robin Hood ou, melhor dizendo, que os governos que valorizam políticas públicas estão roubando delas para dar aos grupos mais carentes. É um típico ressurgimento do fantasma do comunismo, mais uma vez, e que sempre ressurge na população com baixo acesso à educação de qualidade. Sobre esse baixo acesso, eu me considero pessimista; afinal, fica cada vez mais claro que a centro-direita e a direita, que majoritariamente tomam conta do governo das maiores cidades brasileiras, tendem a sucatear a educação básica voltada ao pensamento crítico e a hipervalorizar o ensino técnico e/ou voltado ao mercado de trabalho.

2.1.2§ Sobre o discurso. Entramos aqui no que chamo de Efeito Leo Lins: as pessoas querem poder emitir quaisquer tipos de discursos como meras "piadas", mesmo que tenham uma carga preconceituosa, o tal humor negro, fora dos limites privados, sem que sofram um constrangimento de volta. Minha crítica a tal prática é: a normalização desse tipo de discurso o torna cada vez mais uma realidade na cultura em que ocorre. É desse modo que surgem ideologias e crenças como "a mulher é (inerentemente) mais burra que o homem" ou, melhor dizendo, esse discurso é fruto de um acúmulo de concepções e falas que foram normalizadas com o tempo.

2.2§ Sobre a alienação. Discursos como "cadê a picanha?", entre diferentes classes, refletem como grande parte das pessoas só votou no Bolsonaro por mudanças visíveis. Não importa que vários dados mostrem que o Brasil melhorou em 300 mil aspectos; se ele continua minimamente ruim em algo, é porque o político "não fez nada". Por exemplo, no caso do desmatamento, alguns juram que continua igual porque "ainda existe", sendo que, estatisticamente, diminuiu muito e sem flexibilização da regulamentação (proposta do Flávio para diminuir os índices de desmatamento).

3§ As paixões. Concluindo, deixo aqui o meu puro desânimo em relação às futuras eleições, pois o que mais cresce em meio à crise é a necessidade de se arraigar às paixões. Eu imagino que teremos mais um grande período da direita no poder no Brasil, especialmente com o crescimento do MBL, do PL, etc. Isso é, claro, se vivermos em uma democracia futuramente. Teremos que nos adaptar aos políticos que estarão por vir após a despedida de grandes nomes como Lula. Enquanto isso, os algoritmos das redes sociais e as fake news com apelo emocional vão continuar favorecendo a direita, que ganha cada vez mais uma massa populacional com a educação sucateada que ela (a direita) mesma proporcionou.

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