Estava eu lendo Temor e Tremor, de Kierkegaard (na tradução de Maria José Marinho), quando me recordei de uma sucinta reflexão. Depois de apresentar a condição de Abraão, obrigado a sacrificar Isaque, o filósofo cita rapidamente a lenda de Orfeu, da qual costumo me lembrar com frequência (não se questione o porquê; nem mesmo eu saberia explicar). A conexão entre as condições de Orfeu e Abraão é, no mínimo, curiosa, talvez porque a ideia de perder alguém importante por culpa própria seja recorrente em diferentes grupos sociais. Portanto, caro leitor, caso não se recorde de ambas as histórias, farei questão de resumi-las nos próximos parágrafos e, então, contarei qual foi a minha reflexão.
Comecemos pela história bíblica. Abraão finalmente tem um filho com Sara, depois de décadas cumprindo ordens de Deus até que, por milagre, ela engravida, já em idade avançada. Nasce Isaque. Mas Deus pede que Abraão suba a um monte, indicado por Ele mesmo, e sacrifique o filho, ainda jovem. Com muita relutância interna, Abraão acata a ordem e parte para sacrificar seu bem mais precioso em nome da fé. Pulando para o desfecho: no instante em que Abraão ia concluir o sacrifício com a adaga, Deus o impede, e o teste de fé está cumprido com êxito.
Orfeu, por sua vez, era um músico, o mais inseguro dos homens, sem fé nem em si mesmo; imagina que utópico seria esperar que a tivesse em algum deus. Quando sua amada morre, Orfeu, em desespero, desce ao submundo encantando os guardiões do local até chegar a um acordo com Hades. O trato era este: Orfeu subiria todo o submundo sem olhar para trás em momento algum e, se cumprisse, teria a amada de volta; se olhasse, nunca mais a veria. Ele começa a jornada de volta e, já no final do caminho, prestes a sair, olha para trás, não se sabe se por armadilha dos deuses ou por autossabotagem. Vê sua amada sendo puxada de volta pelos demônios enquanto clama por ele.
Minha reflexão é esta: as duas lendas tratam a confiança como condição para não perder quem se ama, mas Orfeu perde por olhar, e Abraão ganha por não olhar para o que sente. Abraão confia no absurdo e é recompensado; Orfeu não consegue confiar no que não vê e é punido, embora não tenha olhado por maldade, e sim por amor. Resumindo: Orfeu é Abraão se fosse um covarde e sem fé. Isso complica a moral das duas histórias, que parecem ensinar que a fé (ou a ausência dela) decide se perdemos ou não um ente querido.
E é aí que está a problemática. Ambas são lendas, e não vejo sentido lógico em uma correlação baseada na fé, porque ela dá margem a qualquer ação que se queira justificar. Cada texto, separadamente, é satisfatório para algum propósito, qualquer que seja ele. Mas, sob um olhar mais amplo, os dois revelam a correlação típica que o Ocidente faz entre a validade de uma crença dominante e a obrigatoriedade de segui-la. Um critério que serve para justificar tudo não critica nada.
Ó caros leitores, fica então a pergunta: de que vale a fé, ou sua ausência, sem a mínima tentativa de lhe opor antíteses? Obrigado pela leitura.